Je Suis Charlie – Somos todos Charlie?


Por: Patrick Duarte

Desde quarta-feira, dia 7 de Janeiro, um assunto dominou a mídia mundial e provavelmente você já sabe do que estou falando. Se, por algum motivo, não soube do atentado que vitimou 12 pessoas e mais 11 feridos, peço que leia o resumo do caso abaixo.

Charlie Hebdo é um jornal satírico francês que apresenta suas críticas em forma de charges. O que acontece é que eles se tornaram alvos dos radicais islamistas devido a algumas publicações com conteúdo relacionado a religião islâmica. Esse tipo de conteúdo os fizeram sofrer diversos tipos de ameaças e após anos de publicação, a fatalidade aconteceu. Três homens, do movimento radical islamista, invadiram de forma fácil a Sede do Jornal em Paris e assassinaram 12 pessoas, ferindo mais 11. Considerado como ataque terrorista, essa foi, sem sombra de dúvida, o ataque mais violento contra a imprensa e a liberdade de expressão. Um dia triste para a França, e também para o mundo!

Como já citei, o assunto dominou a mídia mundial, além de envolver todos os que acompanhavam a caça aos responsáveis pelo ataque, e também pelo fato da “liberdade de expressão” ter sofrido de maneira tão asquerosa. De forma quase instantânea, a frase “Je Suis Charlie” (Somos todos Charlie) ficou estampada no coração e na mente das pessoas.

charlie hebdo simpsons - Je Suis Charlie - Somos todos Charlie?

Infelizmente, tivemos que vivenciar esse triste dia para perceber algo que já acontece a muito tempo: A intolerância existe, desde que não me atinja!

Não estranhe a minha frase. De maneira alguma estou defendendo o ato absurdo que aconteceu, só quero que pensemos e reavaliemos algumas coisas que pudemos enxergar nesse momento.

No Brasil, o cenário de humor cresceu muito nos últimos anos devido ao fácil acesso a Internet. Muitos nomes apareceram e revolucionaram um tipo especifico de humor mais comum nos Estados Unidos e que agora é comum também no Brasil. Quantos humoristas vocês já viram serem ameaçados, xingados e até sofrerem algum tipo de pressão psicológica devido a suas piadas? Alguns podem dizer que há diferença, que fazer uma piada com religião e fazer uma piada com uma pessoa ou situação é diferente. Mas é grande chave disso é que não é!

A piada sempre teve e sempre terá um alvo. O que fará diferença será “SE” o alvo vai ou não se sentir ofendido. Gritamos pela liberdade de expressão, mas e quando essa liberdade ataca a liberdade do seu próximo, ela pode ser rebatida? Num mundo que tenta definir valores para piada, nunca teremos uma verdadeira base para sabermos onde está o limite. Quando alguém faz piada de religião, de loira, de português, de japonês, acham normal e riem da situação. Mas se fizer uma piada com cadeirante ou qualquer tipo de deficiência física, da raça negra ou de homossexuais, o público e mídia atacam de todas as formas possíveis, seja por agressão verbal ou até mesmo com ameaças via internet. Aqui não estamos defendendo quem faz essas piadas, mas sinceramente, qual é a diferença para você? Provavelmente a resposta será que na segunda opção isso é um ato de racismo, homofobia ou desrespeito. Mas quem disse que chamar loira de burra não é desrespeitoso? Quem disse que dizer que português é burro ou corno não é um “portugafobia”? Quem disse que atacar a religião não é um racismo a forma que eles decidem viver a vida? E não falo exclusivamente da religião islâmica, mas de todas em geral, que sofrem diariamente diversos tipos de humor, do mais leve até o considerado mais pesado.

Se você quer um exemplo mais claro de intolerância é só observar as pessoas que usam a internet para atacar, de forma ridícula, os nordestinos. Tenho certeza que já viu ou leu casos semelhantes no jornal. E o pior, é que tem muitos que aprovam esse tipo de atitude.

Outro caso que ganhou grande repercussão foi a piada feita por Rafinha Bastos sobre a cantora Wanessa, que na época estava grávida. A piada feita gerou inúmeros comentários, dentre os que se destacam as ofensas ao humorista. Até mesmo palavras com referências a armas de fogo foram usadas para demonstrar indignação contra a atitude do humorista. (Veja o vídeo – a citação está aos 48 segundos). Inclusive, a pessoa que disse que usaria arma de fogo é um dos participaram do Fantástico de domingo, com uma charge sobre a intolerância do ataque na França. Existem dois pesos e duas medidas quando o assunto é humor? Mas afinal de contas, isso foi uma piada ou não? Afinal de contas, o que o jornal Charlie Hebdo faz é humor ou não?

Como definir o que pode e não pode ser usado para gerar humor. Você pode falar que a piada do Rafinha não teve graça, mas será que o humor ácido do jornal fizeram todos rir?

Não estou aqui para defender o Rafinha, muito menos os terroristas e o ataque. Nenhuma piada justifica uma agressão ou assassinato, da mesma forma que nenhuma piada justifica o desrespeito com outra pessoa. O que precisamos é pensar melhor no que estamos definindo como ideologia ao defender a liberdade de expressão. Essa liberdade é real? Como posso ter liberdade se preciso tomar cuidado com o quê ou para quem falo algo? Se somos todos Charlie, então aprovamos o humor e piadas de todos os tipos ou somente aquelas que não nos atingem?

Que esse acontecimento possa nos fazer pensar e rever conceitos, que possamos realmente definir valores para nossa vida e não somente ir no “embalo” da mídia.

Torço para que a França supere esse momento sombrio e que possam ter a sua “liberdade” livre outra vez.

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Um comentário

  1. Na verdade, piada ou ser sarcástico é um lado do ser humano que deveria ser abolido. Não digo ter senso de humor, e sim o mundo hoje fazer piada negra com raça, religião, altura, obesidade não em nada de engraçado e o pessoal ainda acha que é liberdade de expressão. Se fosse assim o cara que fica fazendo bullyng do gordinho da escola só está se manifestando sua liberdade de expressão e o gordinho se reagir e se ofender está errado. O valores estão invertidos hoje em dia mas fazer o que o pessoal gosta de cultura inútil, novelas, super enfase em esportes, programas humorísticos, ou sair para baladas, curtir a vida. Daí se tu perguntar algo de conhecimento importante tipo de ciência ele não sabe nada.

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